Lesão em chicote e Dor cervical

Lesão em chicote e Dor cervical

Quando alguém sofre um acidente e traumatismo com grande aceleração ou desaceleração, a cabeça pode ser submetida a movimentos bruscos multidirecionais, similares ao que ocorre com a extremidade de um chicote. Como efeito, a cabeça chacoalha livremente a partir desses movimentos que frequentemente apresentam amplitudes de movimentos maiores do que o suportado pela coluna cervical.

Esses movimentos fortes e descoordenados podem desencadear o surgimento de dor na coluna cervical, na cabeça, em ombros ou membros superiores. Frequentemente a dor se manifesta independentemente da ausência de lesões identificáveis aos exames de imagem iniciais.

A condição clínica que cursa com dor na coluna cervical e nas estruturas adjacentes originada a partir desse tipo de trauma foi genericamente chamada de Lesão por Chicote ou Síndrome do Chicote. Essas lesões ocorrem com mais frequência como consequência de colisões automobilísticas, quedas de nível e de esportes de contato.

 

Antes de tudo, entenda sucintamente a anatomia da coluna:

A coluna vertebral é uma longa cadeia de ossos, discos, músculos e ligamentos que se estende desde a base do crânio até a ponta do cóccix. A coluna cervical (região do pescoço) suporta a cabeça, protege os nervos, protege a medula espinhal e permite a movimentação do pescoço. Ela é composta por sete vértebras, enumeradas de cima para baixo: C1, C2, C3, …

Um segmento vertebral é a relação entre duas vértebras separadas por um disco e pelas facetas. As facetas são projetadas com o intuito de permitir suaves movimentos de flexão, extensão, rotação e inclinação do pescoço, mas também limitam o excesso de movimento. Músculos e ligamentos envolvem e sustentam a coluna vertebral. Todas essas estruturas trabalham em conjunto e potencialmente podem causar dor, posto que todas têm suprimento nervoso e podem sofrer lesões.

 

Quais são os sintomas das lesões por chicote?

Dor de cabeça causada por problemas no pescoço é chamada cefaléia cervicogênica. Pode ser causada por lesão de um disco cervical, de uma articulação. Eventualmente a cefaléia também pode piorar uma enxaqueca já existente.

A dor e a sensação de peso no braço podem ser causados ​​pela compressão do nervo por uma hérnia de disco. Comumente, a dor no braço é referida de outras partes do pescoço. Dor referida é a dor que é sentida em um local afastado das áreas lesionadas, apesar da ausência de compressão neural. A dor entre as escápulas é geralmente um tipo de dor referida. Em oposição, a dor aos membros superiores costuma ser irradiada como efeito da compressão de um nervo na coluna. 

A dor lombar é vista ocasionalmente após uma lesão de chicote. Ela pode ser sentida secundariamente a lesões nos discos, nas articulações facetárias da região lombar ou ainda nas articulações sacroilíacas.

Dificuldades com a concentração ou a memória podem fazer parte dos sintomas, todavia elas também poderiam ser atribuídas à própria dor. Outros distúrbios neurológicos e psicológicos também podem se manifestar como resultado da depressão e angústia relacionadas à incerteza do diagnóstico. Distúrbio do sono pode ser resultado da dor ou da depressão secundária. Outros sintomas podem incluir visão embaçada, zumbido nos ouvidos, formigamento no rosto e fadiga.

 

O que causa dor crônica no pescoço?

Geralmente não é possível saber a causa exata da dor no pescoço nos dias ou semanas após um acidente automobilístico. Sabemos que os músculos e ligamentos ficam tensos e provavelmente inflamados. Contudo, eles geralmente cicatrizam dentro de 6 a 10 semanas. A dor que persiste por mais tempo geralmente resulta de problemas mais profundos, como lesões nos discos, facetas articulares ou ambos.

 

Facetas articulares

A dor nas facetas articulares é a causa mais comum de dor cervical crônica após um acidente de carro. Pode ocorrer isoladamente ou associada a dor no disco. A dor facetária é geralmente localizada nas laterais do pescoço. A área pode estar sensível ao toque e a dor na faceta pode ser confundida com dor muscular.

Não podemos afirmar se uma faceta é a causa da dor apenas pela sua aparência em um exame de imagem. Realizar uma infiltração pode ser a melhor maneira de identificar se a articulação é uma fonte de dor. Os bloqueios  anestésicos do ramo medial do gânglio dorsal são indicados com o intuito de testar hipóteses diagnósticas.

 

Discos intervertebrais

A lesão no disco também pode causar dor crônica no pescoço. O disco permite o movimento do pescoço, mas, ao mesmo tempo, evita que o pescoço se mova demais. A parede externa do disco, chamada de ânulo fibroso, pode rasgar por uma lesão em chicote. Isso geralmente cicatriza, embora possa não cicatrizar. , pode ficar mais sensível e doer durante atividades normais. A dor vem das terminações nervosas existentes na periferia do ânulo.

O disco é a principal causa de dor de cervical crônica. Menos frequentemente, um disco pode migrar além de seus limites e comprimir um nervo ou a medula espinhal – hérnia discal. Isso geralmente causa mais dor irradiada ao braço do que dor no pescoço, além de amortecimento e fraqueza.

 

Dor muscular

A tensão muscular do pescoço e da parte superior das costas também pode causar dor aguda. No entanto, não há evidências de que os músculos do pescoço sejam uma causa primária de dor cervical crônica. Eles frequentemente doem concomitantemente com as facetas e/ou discos. Os músculos podem doer se estiverem muito tensos, a fim de proteger os discos ou facetas lesionados, ao proteger os nervos do pescoço. Adicionalmente, a dor pode surgir se houver distúrbio mecânico, como na má postura, uso de equipamentos eletrônicos (celulares, notebooks) e hábitos ruins.

 

Tratamento da Lesão por chicote

Tratamento clínico

O tratamento da lesão por chicote nas primeiras semanas e meses requer reabilitação física. Em primeiro lugar, a reabilitação envolve o treinamento de força e instruções sobre a mecânica corporal. Os pacientes frequentemente melhoram após cerca de 12 semanas de tratamento. Eventualmente alguns pacientes necessitam de tratamento especializado, focado na causa da dor.

O treinamento de força é necessário para desenvolver força muscular suficiente para ser capaz de manter a cabeça e o pescoço em posições de boa postura em repouso e durante as atividades. Fortalecer os músculos também melhorará sua amplitude de movimento.

A mecânica corporal descreve a inter-relação entre a cabeça, pescoço, parte superior do corpo e parte inferior das costas durante o movimento e em repouso. O treinamento na postura adequada diminui o estresse nos músculos, discos e vértebras, dando ao tecido danificado a chance de curar. A má postura e a mecânica corporal desequilibram a coluna e criam um alto estresse no pescoço. Desse modo, a cura pode ser retardada ou impedida.

A terapia de manipulação vertebral geralmente é realizada por quiropratas, osteopatas ou fisioterapeutas especialmente treinados. Ela pode fornecer alívio dos sintomas para muitos pacientes e geralmente é segura. Contudo, deve ser combinada com treinamento de força e educação de mecânica corporal.

Os medicamentos são úteis para o controle de sintomas. Eles nunca resolvem o problema e devem, em princípio, serem usados ​​apenas como parte de um programa global de tratamento. Não há o melhor remédio para dores no pescoço. A escolha da medicação depende não só do tipo, gravidade e duração da dor, assim como da condição clínica do paciente. Os medicamentos mais prescritos para dor aguda no pescoço são anti-inflamatórios, relaxantes musculares, analgésicos simples, opioides e antidepressivos.

 

Tratamento intervencionista

Infiltrações podem ser úteis em pacientes cuidadosamente selecionados. Novamente, as infiltrações não curam o problema e devem ser apenas uma parte de um programa de tratamento mais abrangente. As infiltrações peridurais podem proporcionar alívio em curto prazo em casos de compressão do nervo com dor no braço. Raramente são efetivas para a dor puramente do disco, sem sintomas irradiados.

As infiltrações anestésicas de facetas podem aliviar temporariamente a dor.  Embora o alívio subsequente dure pouco tempo, o bloqueio do ramo medial do gânglio dorsal de uma faceta guia o planejamento terapêutico. Ao se obter um alívio substancial da dor (maior que 50%) com estes bloqueios, indica-se a rizotomia por radiofrequência. Sem dúvidas, a grande aplicação dos bloqueios anestésicos facetários é para confirmar uma hipótese diagnóstica.

A rizotomia por radiofrequência é um procedimento em que se queimam os nervos de cada faceta, inibindo a condução dos estímulos dolorosos. É, portanto, útil para dor que tem origem nas facetas articulares. O alívio pode durar de 9 a 18 meses. Se acaso a dor retornar, o procedimento poderia ser repetido. Só deve ser considerado em situações crônicas de dor significativa.

Cirurgia para dor cervical crônica dificilmente é necessária para casos puramente secundários a lesão por chicote. No entanto, a cirurgia pode ser útil quando há dor intensa proveniente de um ou mais discos e o paciente está muito limitado, psicologicamente saudável e não melhorou com o cuidado não operatório. A cirurgia é feita mais frequentemente quando há compressão sobre um nervo ou medula espinhal.

 

Como isso é diagnosticado?

Diagnóstico clínico

Seu profissional de saúde irá perguntar-lhe sobre seus sintomas e como ocorreu a lesão. Em seguida, ele realizará o exame físico. Isso permitirá que o profissional defina se você precisa de algum exame imediato. Posteriormente, com base em seu quadro clínico, ele definirá o melhor tratamento.

É possível que alguns pacientes não melhorem após cerca de 12 semanas de tratamento. Uma vez que não houve a resposta esperada, uma avaliação mais detalhada deverá ser realizada. Nem todos os pacientes precisam de todos os exames.

 

Exames diagnósticos

Raios-X é realizado logo após o trauma se o profissional de saúde suspeitar que haja uma fratura ou instabilidade. As imagens de RX também mostram sinais indiretos de degeneração (altura do disco, osteófitos ou “bicos de papagaio”). Na ausência aparente de fraturas, podem ser realizadas imagens dinâmicas, ou seja, com flexão e extensão do pescoço, a fim de investigar potenciais instabilidades​​.

A ressonância magnética 

A tomografia computadorizada

A eletromiografia  

Diagnóstico intervencionista

O bloqueio do ramo medial do gânglio dorsal é uma infiltração feita para determinar se uma articulação facetária está contribuindo para a dor no pescoço. Logo, trata-se de um método diagnóstico intervencionista para confirmar ou afastar uma hipótese diagnóstica.

A discografia é um teste provocativo onde se injeta solução dentro do disco. Os sintomas que podem surgir durante sua realização são correlacionados com o volume e pressão de infusão. Ao surgir ou se houver simulação dos sintomas usuais do paciente, infere-se que o disco testado potencialmente contribui para a dor. A discografia é usada primordialmente para pacientes com dor severa que não melhoram com tratamento clínico e que a cirurgia é considerada.

 

Se você teve uma lesão por chicote…

  • Um especialista em coluna pode ajudar a aliviar a dor do chicote e recuperar a amplitude de movimento. Siga as instruções do seu profissional de saúde cuidadosamente.

  • Mantenha-se ativo e faça os exercícios que lhe foram ensinados para melhorar sua postura e reduzir a tensão no pescoço.

Lembre-se de que, com os devidos cuidados e paciência, é provável que você se recupere do efeito chicote.